Neila Tavares, confissões

Memórias e alucinações

2009-07-09

Capítulo 38


Salim Simão, personagem de Nelson Rodrigues


Salim Simão é personagem de Nelson Rodrigues, em Anti-Nelson Rodrigues. Criado por Paulo Cesar Peréio, na primeira montagem, de 1974. Salim faz parte daquele rol de personagens reais, que Nelson adaptou à ficção. Assim como fez com o Amado Batista, repórter policial sem caráter e sem qualquer sensibilidade, que arrastou da vida real para o palco e as páginas de A Vida Como Ela É...Ou se utilizou do nome de Otto Lara Resende, como segundo título de Bonitinha mas Ordinária (ou Otto Lara Resende).

Jornalista, amigo de Nelson faziam então já quarenta anos, Salim Simão era um histriônico. A pessoa mais histriônica que já encontrei. Era um exagero. Uma pessoa superlativa. À medida que se empolgava no próprio discurso ( e sempre se empolgava, fosse qual fosse o discurso, mesmo o mais cotidiano), ia levantando a voz, e levantando o corpo da cadeira. Pouco a pouco, ia se pondo de pé nos seus monólogos, sustentando-se nos joelhos. Ia crescendo. A voz ia ficando poderosa, ouvida à distância, entrando em falsete. O gesto enorme. E ligeira espuma lhe surgia no canto da boca que perdera os lábios com a idade. Devia ter a mesma idade de Nelson Rodrigues. E a boca se tornara agora um traço só.

Talkative. Que é como se chama hoje o indivíduo que fala sem parar, sem esperar a resposta do outro. Viúvo, talvez se pudesse explicar pela solidão esse quadro comportamental . Talvez. Sempre tive em relação a ele a sensação de um solitário.

Naquela tarde íamos almoçar num restaurante, com Nelson e Salim. Pereio, eu e Carlos Gregório. O encontro tinha por objetivo apresentar Peréio ao personagem que Nelson lhe destinara, na peça que então começava a escrever para nosso elenco. Salim estava inquieto, exibido. Acredito que nervoso ( quem não ficaria numa situação destas?), mas pretendia dissimular. Contava de um almoço que preparava para o aniversário de Alceu Amoroso Lima, o Dr Alceu, por quem tinha verdadeira veneração. O mesmo Dr. Alceu que Nelson tantas vezes reduzira a pó em suas crônicas, mas – diz-se, não sei se verdade ou lenda – que fizeram as pazes no final da vida. O discurso empolgava Salim, a veia do pescoço pulada, a cara vermelha, a boquinha em traço, espuma branca e espessa no canto, a voz desafinada perdendo o tom, ficando aguda, fininha.

Discorria as homenagens que preparava para o aniversariante, já velhinho, chegando ao centenário. Haviam de ser tantas que “o velho – ele dizia – vai morrer. Eu quero que o velho morra de felicidade. Caia pra trás durinho, a mão no coração, instantâneamente. Aí eu estarei realizado.Tem que morrer. Não aceito menos que isso”.

Engrenar numa conversa assim era uma forma de disfarçar o nervosismo de estar diante do ator que ia vivê-lo no palco, fingir que não “estava nem aí” para o fato e para Peréio, que fazia por onde não notar.

Salim, como na peça, gostava de cantar tangos para a falecida mulher. Dançava cantando À Media Luz. Permaneceu fiel à sua memória, nunca mais pensou em casamento.

Com este temperamento que lhes digo, claro, era hipertenso, cardíaco. Tinha por cardiologista Dr Stans Murad, e , em gestos bem teatrais, quando estava a ponto de implodir, de eclodir como um vulcão havaiano, começava a procurar nos bolsos: “Onde está meu Isordil? Meu isordil sublingual, pelo amor de Deus. Eu preciso ver o Stans Murad. Ah, eu não seria nada sem o Stans Murad. Devo a vida ao Stans Murad. Me ajoelho a seus pés, porque lhe devo a vida”. E , encontrando o Isordil, colocava o comprimido sob a língua e instanteamente se acalmava. O corpo, antes crispado, relaxava. A respiração mudava de ritmo.Voltava a falar baixo, pausado, controlado, até descambar de novo na emoção exagerada, no momento seguinte.

Nelson levou essa característica para o seu Salim de ficção.

Queria que Peréio fosse tão fiel ao modelo real quanto possível, embora a ficção não fosse uma biografia. Pegou do Salim real o que queria, criou outro Salim. O da vida real, por exemplo, não tinha filha com nome de Joyce e jamais vivera a situação da peça. Também não tinha uma empregada preta e gorda, chamada Hele Nice ( Hele Nice, imagina!). Mas era ele, o Salim, explicitamente.

Peréio resolveu de cara o personagem. Imitar Salim no falsete da voz, na boca sem lábios, no discurso crescente, no brusco refreio, nos tangos. Nelson deu ao Salim da peça uma cena de Dostoievsky, em Crime e Castigo ( verdadeira obsessão rodrigueana) , citação em que repete na peça a fala de Marmeladov, quando, ajoelhado aos pés de Sônia, diz “Não foi diante de ti que me ajoelhei, mas diante de todo o sofrimento humano”.

Além de imitar o Salim real, Peréio vinha desenvolvendo a teoria de que a melhor forma de dizer um texto de Nelson era imitar a inflexão, a pausa, o ritmo da fala do próprio Nelson, que, por sua vez, escrevia como falava. Juntando os dois ( Nelson e Salim), já nos primeiros ensaios Peréio parecia pronto para estrear.

No dia da estréia – os amigos nos contaram depois, Salim entrou na platéia amparado por amigos, um de cada lado. A emoção era tanta, que dizia que as pernas não o obedeciam , estava trôpego. Chegou entre os primeiros. Sentado na primeira fila, foi logo gritando. “Separa aí um lugar pro Stans Murad perto de mim. Não posso ficar longe do Stans Murad. Meu coração. Estou sentindo meu coração.”. O médico sentou-se atrás de Salim.

No palco, Peréio, o Salim de ficção, gritava no espetáculo: “Stans Murad. Onde está o Dr. Stans Murad. Hele Nice , liga pro Stans Murad. Cadê meu Isordil sublingual?”. Na platéia, o Salim de verdade, em voz que se ouvia ressonante por toda a platéia, repetia: “ Segura minha mão, Stans Murad. Estou morrendo de emoção com esse troço. Cadê meu Isordil? Me dá aí meu Isordil sublingual.” E apertava a mão do cardiologista.

O trabalho de Peréio era uma maravilha.

Salim se negou a ver outras vezes a peça. Às vezes passava no teatro pra ver Nelson, mas não ficava para o espetáculo, dizia que não suportaria. E, como fazia o próprio Nelson, também se sentava na bilheteria, para ver o público chegar.

Vibrava com venda de mais um bilhete, como uma criança. "Mais um - gritava. Mais um. Já são cem, agora!" Cada espectador, era seu espectador. Aquele, não era o público da peça. Mas o seu público. Tinha ido ao teatro para vê-lo, a seu ver.

Nelson, desde os anos 60 falava em Salim Simão, com algum deslumbramento, em suas crônicas.

Uma delas, de 68, O Brasil Karamazov, acaba de entrar na internet, no blogue Rodriguianas ( V. link abaixo) .

Sem nenhuma isenção - que não tenho mesmo - acho um texto bonito pra burro - para usar uma expressão de Nelson. E, se eu fosse você, não perdia a oportunidade. Ia lá, ler O Brasil Karamazov. E conhecer um pouco mais deste fascinante personagem.

O link:
http://rodriguiana.blogspot.com/2008/09/o-brasil-karamazov.html








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