O Retorno
Resumo do capítulo: Do sumiço ao retorno à cena
O livro das memórias
Eu vinha me perguntando como começar estas Confissões. Se de trás pra frente, se de frente pra trás; se com meu trabalho de atriz, ou de autora, ou de diretora, ou...
Agora parece que encontrei o começo. Começo por ontem.
Aventuras de uma alienígena
Estava afastada do trabalho de atriz há muito tempo. Mais de dez anos, acho. As novas gerações já não se lembram mais de meu trabalho ( preço que todo ator de teatro sabe que vai pagar, já que o teatro é momento, e não permanece), mas os colegas de trabalho também me estranhavam. Um dia, no final de um espetáculo, fui abraçar Ney Latorraca e ele me tratou como a uma fã, me chamou de “Minha senhora”, olhou através de mim, e eu fiquei tão tímida que não desfiz o engano. Não disse :” Êi, Ney, acorda, sou eu, sua quase homônima” ( Tanto eu quanto Ney fomos a vida inteira perseguidos pela mesma piada. Chamarem Ney La Torraca de Ney La Tavares e a mim de Neila Torraca). E passei por fã.
O mesmo aconteceu em outro teatro, quando entrei no camarim de Eva Wilma e Eliane Giardini. Não me reconheceram e de novo me deixei passar por fã. Atacada da mesma timidez, sim. Mas também porque tinha perdido “a linguagem”. Esses artistas sempre tão assediados desenvolvem, por um compreensível instinto de defesa, um jeito, um olhar ( olham através de você e não pra você, e por isso não te vêem) e eu não sabia mais lidar com isso.
Enfim, eu e a cena nos havíamos divorciado e os amigos do casal, uns foram com ela, outros ficaram comigo. Não freqüentávamos mais os mesmos lugares ou rodas de amigos, a cena e eu, nem falávamos a mesma língua, embora nos déssemos razoavelmente bem.
Eu também tinha deixado o Rio de Janeiro e mudado para Lumiar, Distrito de Friburgo e , embora viesse muito ao Rio e aqui ficasse temporadas de até um mês, era lá, no meu jardim, na solidão da casa retirada, que estava agora a minha alma.
Eu só tinha me afastado do trabalho de atriz. Continuava trabalhando e muito. Fazendo roteiros, livros, pesquisas, dirigindo documentários de cinema... Mas sem muita Mídia.
A volta da velha senhora
Mas aqui e ali, eu ouvia coisas que me instigavam..
Uma noite, encontrei Zelito Viana na casa de Paulinho Mendonça, e ele me falou do quanto achava absurdo que eu deixasse de trabalhar como atriz. Ele foi severo, contundente, e, embora elogioso , deu à conversa um certo tom de bronca e confesso que me tocou. Zelito não foi o único; outras pessoas me diziam o mesmo.
Eu, no entanto, quanto mais me distanciava deste mundo, mais estranha ficava dentro dele, menos à vontade para procurar trabalho de atriz, saindo em busca de pessoas que nem sequer se lembravam mais do meu rosto... E quer saber? Uma falta de saco, para encarar essa!....
Diante dos astros me sentia agora uma alienígena. Alien. Um nome que sempre me pareceu curioso, porque é meu nome, Neila, ao contrário, e até já o usei um tempo, como pseudônimo, quando escrevi histórias sensuais para sobreviver. Também fui a Condessa de O, nesta vertente. Mas isso já é outra história, que adiante contarei.
A anti-atriz
Sou um caso grave de talento sem vocação. Livre demais, inquieta demais, sem saco demais para me dedicar a uma profissão ou a uma carreira como é a de atriz, que exige tanto. Quero conhecer coisas novas, mudar para cidades diferentes, experimentar linguagens, tocar minhas potencialidades em diversas áreas... Sou orgulhosa demais para correr atrás, enfrentar as salas de espera da Globo, e me oferecer para trabalho. Anti-social demais para me mostrar em festas. Rebelde demais para me adequar à prepotência dos comandantes da Televisão. É natural, portanto, que estivesse esquecida. Sou um caso grave de anti-atriz, por temperamento.
Também não consigo dar tanta atenção assim à beleza. Estou sempre ocpada com sonhos e projetos e os cremes contra rugas envelhecem nos potes, esquecidos.
Neste tempo fora da cena, envelheci. Envelheci talvez mais que a maioria das mulheres da televisão da minha geração, porque me dei menos trato, fiz menos massagens, freqüentei raríssimas vezes o salão de cabeleireiro, corto o cabelo eu mesma em casa, num jogo de espelhos, não fiz plástica ou botox, passei menos cremes... E o que é pior. Gostando disso, gostando de me sentir livre da busca permanente de juventude e beleza. Deixei os cabelos brancos, que é como os vejo mais bonitos. Acho que deram um mais delicadeza à minha imagem.
Se é inevitável....
Envelhecer não é uma coisa que me chateie tanto. Nelson Rodrigues dizia aos jovens: “Jovens, envelheçam.. Envelheçam o mais depressa possível. Envelheçam antes que seja tarde demais”. E não perdi a chance de envelhecer.
Em compensação, minhas inquietações, que mal me deixam tempo livre de me olhar no espelho, minha criatividade desenfreada, sempre me colocando na frente novas coisas atraentes, criando projetos, sempre apaixonada por alguma idéia nova, me dão uma outra forma de jovialidade, de vitalidade, um olho brilhante, um corpo vibrante que muitos da minha geração, senão a maioria, já perderam no caminho.
As coisas haviam mudado bastante. No meu tempo de celebridade, lembro que diversas vezes peguei um ônibus. Porque não dirijo, não gosto de carro, e porque as celebridades naquele momento não enriqueciam como enriquecem agora. Hoje, o assédio dos paparazi às celebridades é uma das coisas que me horrorizam. E estava livre deles.
Eu via, portanto, muitas vantagens no anonimato.
Virei um bicho da terra.
Estava agora um bicho da terra, pés grossos de andar descalça na terra de Lumiar, unhas encardidas de mexer na terra - essa minha mania de tratar do jardim sem luvas, de gostar de sentir a terra entre os dedos. Não ia a festas, não freqüentava os bares, não respondia aos convites e passava uma semana, dez dias às vezes, sem ver uma única pessoa, vivendo profundamente a solidão da casa retirada de Lumiar.
E onde colocar um trabalho de atriz em minha vida, agora, os ensaios de teatro, a participação na novela ou na mini-série? E verdade é que a última vez que a Globo me chamou, para uma novela de Manuel Carlos, pedi alto, mais alto do que sabia que eles se disporiam a pagar, e não fiz.
Na Globo você vale quanto pesa, e seu salário determina o tratamento que vai merecer, mais ou menos atencioso ( para não dizer respeitoso), com maiores ou menores direitos ao conforto. Tem também um sistema esquisito, no qual se você fizer um trabalho hoje, daqui a dez anos, quando te chamarem de novo, o referencial de salário ou cachê ainda será o do último contrato. Portanto, bom é jogar pra cima, tanto quanto se puder, mesmo correndo o risco de perder o trabalho.
A fama, o sucesso, nunca me atraíram. E no entanto, o fazer da atriz, do ator, ainda continuava me dando um certo frisson. Batia às vezes uma saudade daquela adrenalina.
Um site chamado Volta Neila Tavares
Sou desligada em relação às coisas da fama.
Não guardo um único recorte de minha carreira e nunca tinha colocado meu nome num site de busca. Acredita? Só recentemente fui lá no Google, ver meu nome.
E de cara encontro um site, com o nome voltaneilatavares e em cuja sala se discutia se a Neila Tavares atriz e a Neila Tavares, mulher de Fernando Gabeira, seriam ou não a mesma pessoa. Um desejava que fosse eu aquela, e já dizia da beleza de casal que formávamos, Gabeira e eu. Outro reagia com horror. Não gostava de Gabeira, por isso, por aquilo, ao passo que eu era tudo de bom. Bom, por enquanto apenas esclareço que não sou a Neila Tavares do Gabeira. Depois voltarei às duas Neilas.
Eu fiquei homenageadíssima. O site estava lá, ativo, e era de fãs inconformados com a minha retirada de cena. Mas a correspondência que recebia, a freqüência com que era visitado ou que tinha gente na sala de conversação, vinham rareando. E eu pensei: ”Ô, meu Deus, não pode uma coisa dessas, este site estar na internet há tanto tempo, sem que eu nunca tivesse me manifestado, sei lá, conversado com esses fãs assim tão fiéis.”
Enviei o primeiro email, que encontrou o manager ( é isso?), o dono do site, bastante desanimado, sem tempo, trabalhando muito, mais faculdade de química, etc..., sem dar mais muita atenção ao Volta Neila Tavares. Senti que tinha chegado tarde.
Foto em leilão
Prossegui minha busca na internet, vi meus livros à venda.... Alguns no sebo, ora essa. Quem mandou meu livro pro sebo?
E bati num anúncio. Alguém, no Mercado Livre, leiloava para colecionadores uma foto minha. “Céus! Sou um sucesso ainda!”. Fui lá, apertando botão até abrir a foto em leilão. E... não era eu. Parecida comigo na juventude, o mesmo tipo físico e jeito de usar o cabelo, mas não era eu. Uma falsa foto, que engraçado.
Mas enfim, não estava ainda totalmente esquecida, e vez por outra alguém me reconhecia na rua, principalmente pela voz ou pelo nome.
E, se quisesse voltar, tinha a meu favor o fato de que deixei um bom nome quando desapareci. Fiz fama de atriz talentosa e competente apresentadora de TV
Afinal, falo de ontem: Fernando Ceylão e o Canal Brasil
Mas todo esse prólogo é para chegar a ontem, terça-feira de maio, dia lindo, como somente os dias de maio são.
Lara ia trabalhar como produtora numa série do Canal Brasil, " Voc^está aqui",escrita por um autor novo que eu não conhecia, Fernado Ceylão, também diretor. Eram 20 histórias curtas, com 15, 20 minutos de duração, com atores, em fundo preto. Perguntou se podia lembrar meu nome para a série. Respondi que sim, sem pensar muito.
Por coincidência, dessas que agora não vem ao caso , entre a sugestão da Lara de meu nome na série e a primeira gravação, esbarrei com dois textos de Ceylão, gravados em vídeo. No primeiro, a Gianne Albertoni, linda e magra, modelo e atriz, faz o papel de uma mulher muito, muito gorda, que faz cirurgia de estômago, emagrece, fica linda e volta a engordar tudo de novo. A jovem Gianne, atriz surpreendente, convencia, tanto como gorda quanto como magra. Mas o que me encantou foi a força do texto de Ceylão. Um texto muito vigoroso e extremamente cruel.
No segundo, Paulo César Peréio é um solitário que invade o apartamento de outro homem. Era de novo um texto fantástico.
Texto que dói
O texto de Ceylão maltrata o ator, dói muito na gente, machuca. Mas dá um prazer enorme dizer um bom texto, criar um personagem bem estruturado E gravei para a série do Canal Brasil a Sônia, uma mulher casada e solitária que paga a um menino michê por um abraço, num episódio chamado Terapia do Abraço. Foi bom. Não tinha perdido a “embocadura”. Meu trabalho de atriz era ainda muito bem aceito pelos outros e por mim. Rendi bem no estúdio, e tinha agora uma vantagem a mais. Eu tinha perdido a ansiedade, o negócio de achar que cada papel é tudo e pode definir a vida e o mercado de trabalho, te marcar de forma definitiva ( uma das maluquices comuns do ator).
Como estava fora do mercado, e nem tão preocupada assim em reconquistá-lo, eu estava relaxada, o que trazia bons resultados. Estava ainda bem amparada por um elenco excelente, que tinha, por exemplo, Felipe Wagner, ator que admiro em silêncio desde a adolescência.
No final da gravação, Ceylão me chamou para uma pequena participação noutro episódio da série, este agora protagonizado por Louise Cardoso, outra mulher solitária. As mulheres de Ceylão são muito bem construídas. E ele não livra a cara de seus personagens. É muito, muito cruel, desaverganhadamente cruel. Aceitei. Tinha gostado da brincadeira. E seria também a primeira vez em que contracenava com Louise Cardoso, outra atriz que namoro à distância há mais de 30 anos.
A cena era pequena, mas havíamos conversado, Ceylão e eu, que esta mulher era uma antagonista, uma mulher que ela, Louise, encontrava na rua e que a massacrava com o olhar. Criei, portanto, uma mulher exuberante, para antagonizar com a infeliz Estela (personagem de Louise). Mas quando entrei no estúdio, vi Louise tão pequenininha e sofrida, tão passarinho ferido ( Ela fez uma Estela grandiosa), tão no limiar da loucura , atriz e personagem, que minha vontade foi protegê-la, e acabamos nos abraçando na cena.
Era essa coisa de quanto os personagens deste autor dóem no ator, machucam a gente. E observei ali que não só com o ator isso acontece, mas com todo mundo que participa, de uma forma ou de outra, da cena. Câmeras, técnicos, todos saindo mal dela. No mínimo, exauridos. Todos pareciam fantasmas transitando no estúdio, abatidos, com grandes olheiras, gravando um episódio de crueldade após outro.
Então, me ocorreu oferecer ao Ceylão: “Me use”. Em pequenas ou grandes cenas, em figurações engraçadas, no que quiser. Me use.. E ele usou. Foram 4 episódios.
Na segunda-feira seguinte recebi um telefonema da produção:” Ceylão tem um papel pra você, pra gravar amanhã, mas não tem texto. O negócio é o seguinte: ele vai te dizer qual o personagem e a cena na hora, dentro já do estúdio e você faz, totalmente de improviso.” Topei.E veio logo aquele friozinho gostoso do desafio, atravessando a espinha.
Escolhendo figurino para personagem inexistente
A série foi feita com pouco dinheiro , a gente criando o figurino com o que tem em casa.
E vinham recados: “levar um vestido”. Mas que vestido, se nem sei que personagem é esse? Abri o guarda-roupa, escolhi um vestido beige, alguma coisa neutra, como uma tela em branco, na qual se pudesse pintar qualquer personagem. Aí peguei lenços coloridos “ Vai que eu precise colori-la?!...”.
E vem o segundo recado: ”Você tem aí uma blusa de oncinha?”. Não, não tenho. Mas então não é mais o vestido beige sem cara definida. É uma mulher que usa blusa de oncinha. E peguei outras roupas, no guarda-roupa, que pudessem substituir a oncinha.
Estava excitada com a experiência em si, o desafio. E bastante assustada. Às vezes pareço uma pessoa sem medo, e de vez em quando alguém acredita. Mas explico. Eu sou muito medrosa, muito. Às vezes acho que o medo comanda boa parte de minhas ações. O que difere em mim, o que causa espanto, é minha forma de lidar com o medo. Eu corro na direção dele, pra “acabar logo com isso”. E é o que estava fazendo agora, correndo na direção do meu medo.
Fisicamente eu também me preparei para aquele inusitado fato cênico. Comi pouquinho, bebi muita água ( não sabia o quanto iria ser exigida fisicamente), enrolei o cabelo no dedo para deixá-lo mais dócil, mais obediente, e lhe pudesse dar na hora a forma que eu precisasse. Fiquei quieta, concentrada, tentando relaxar, desde horas antes da gravação.
Palavras pegas ao acaso, colhidas com ouvido atento, pedaços de conversas de corredor, iam me dando dicas: “a avó dele”, “o assassinato”, “coisa mórbida”, “o episódio mais pesado” .Havia também um clima indisfarçável de preocupação na equipe, que conhecia a história do episódio. Uma tensão, uma forma excessivamente carinhosa de me tratar como se estivessem todos com pena de mim. Perguntavam se eu queria água, coca-cola, se tinha fome, me traziam cadeira se me viam de pé, acariciavam minha mão e meu braço ao passarem por mim... De vez em quando surpreendia alguém me olhando com cara de “Eu tô aqui, viu? Qualquer coisa, eu tô aqui”. Era todo um quadro que me apontava para alguma coisa de muito grave que iria ocorrer comigo no estúdio. O bicho ia pegar Eu só não sabia como.
Ceylão não quis discutir roupa, nada, antes da câmera abrir. Tudo seria feito diante da câmera. E quando isso aconteceu, ainda no corredor do estúdio, como vinha de casa ( cabelo preso pra trás, nenhuma maquiagem), nos reuniu, eu e Remo, o outro ator, e enfim revelou o que faríamos.
Primeiro contato com Beth, personagem
Há cinco anos, a avó de Ceylão morreu, assassinada, por causa de dívidas no jogo. Foi morta a porrada, e deixara um rastro de sangue quando se arrastou no chão, tentando chegar ao telefone.
Fernando Ceylão nunca soube o que ocorreu ali, naquele momento, mas o longo rastro de sangue lhe deixara a impressão de que a avó agonizara, antes de morrer E quando a família recolheu as coisas de Beth ( esse era seu nome), deu-se conta da importância do jogo em sua vida. A avó já tinha perdido um bom apartamento para o vício, e os canhotos de seus talões de cheque estavam todos anotados: “Agiota. Agiota. Agiota.”
Agora, ele queria, enfim, tentar descobrir o que aconteceu ali, naquele apartamento, naquela noite, trazendo o fato para a cena. Eu, como Beth, a avó, Remo como o matador.
O momento era de risco. Remo empalideceu. Na minha cabeça passaram-se rapidamente coisas, palavras e imagens com a rapidez de quem se afoga e revê toda a vida em segundos. O risco era enorme pra mim, pro Remo, pro Ceylão. Aquilo poderia ser muito doloroso para nós.
Beth tinha sido uma mulher exuberante, alegre, engraçada e vaidosa – Ceylão me dizia. E eu não queria expô-la tanto ao “bode”. Eu precisava tentar alguma coisa salvadora em relação àquela tragédia. Alguma coisa que fosse boa para Beth e para nós todos.
Imagens de arquivo para a composição de uma jogadora
Havia mais uma coisa: Eu tinha sido muito amiga de Anita, que conheci velhinha e agora já morta há anos, e que foi uma jogadora das mais compulsivas. Tinha servido de gost-writer em seu livro de memórias, quando entramos profundamente no universo do jogo. Anita agora voltava, para se misturar a Beth. Eu sabia como o jogo entra na vida do jogador e porque. Francamente, eu entendo tanto que alguém se afunde no jogo, se entregue a essa compulsão, sempre querendo mais risco, mais emoção, mais perigo, que tenho medo. Não chego perto do jogo. Obsessiva como sou, compulsiva, eu poderia ser uma jogadora sem salvação, tenho certeza disso.
Então, me identificava aí com a personagem.
Mas o viciado no jogo, não é só viciado nele, mas em toda a sua atmosfera. É viciado na emoção do jogo em si, viciado em perder, em não ter como pagar, em ter que se trancar em casa sem abrir a porta com medo do cobrador, viciado na culpa e na execração pública que lhe impõem as dívidas, na decadência . É viciado em tudo isso. E Anita contava, com uma paixão adolescente, como um dia, depois de trancada uma semana inteira, e já sem ter o que comer em casa, acuada por medo do cobrador, desceu pra comprar comida disfarçada, com peruca, lenço, óculos escuros e uma roupa que não tinha nada a ver com ela.
Anita falava e de novo a emoção do perigo a tomava, o coração batia forte outra vez, e a paixão falava alto pela sua voz. Os olhos brilhavam, com um brilho louco, as mãos geladas. E ela estava viva de novo, adolescente e apaixonada. A idéia do risco, a adrenalina, davam-lhe sentido à vida.
De Anita e outros jogadores também ouvi da emoção causada pelo barulho das fichas, o coração saindo pela boca.
Beth tinha errado a mão nessa emoção do perigo. Ela tinha ido longe demais. E o seu matador, por sua vez, talvez tivesse também errado a mão. Provavelmente não tinha ido para matá-la, porque não levou arma. Mas para dar um susto, uma surra, qualquer coisa no gênero. Depois, ninguém sabe.
Mas Anita se misturava a Beth, enquanto discutíamos a cena. E foi rápida a conversa, muito rápida.
Falei que o jogador gosta do risco, precisa dele, conhece o risco e conta com ele. Ele se arrisca cada vez mais porque isso lhe dá prazer. Tem uma necessidade de perigo cada vez maior. Sabe que pode morrer por isso, e gosta dessa idéia de namorar a morte. Ele espera qualquer coisa. E nessa situação, está todo alterado. A mente está alterada , o metabolismo, o corpo produzindo substâncias incomuns. Por isso, o jogo cria dependência física. O sujeito, nessas circunstâncias, está todo aquecido e não sente como uma pessoa que, fria, recebe uma porrada sem esperar.
Uma outra característica do jogador me parecia salvadora naquela morte: o jogador é um fantasista, um mitônomo. Ele acredita que um dia alguma coisa maravilhosa acontecerá para mudar sua vida, e age hoje como se já estivesse tão rico como espera ser um dia. “Viaja” numa riqueza que não virá. Todo jogador mente, para os outros e para si mesmo. E a fantasia não a abandonaria num momento como aquele. Ela viria em socorro, como uma coisa salvadora, amenizar a agonia.
O jogador também se vê como um herói. E , neste sentido, a morte de um jogador pelas dívidas do jogo, para ele, tem o sabor da morte de um ator em cena aberta. E é quase orgástica. Ela finaliza uma tensão que já se tornara humanamente insuportável, maior do que alguém pode agüentar. A morte é o fim, o alívio da espera.
Entre pensar e fazer
Se conseguisse fazer esse caminho, de certa forma eu redimia Beth de seu sofrimento.
Lembro que li uma vez em Castenheda ( e não sei mais em que livro dele) uma história assim: o homem falava de sua tia como tendo sido ela uma pessoa extremamente feliz, e que morreu em perfeita paz. Era mentira. A tia vivera sempre muito torturada, tentando seguidos suicídios frustrados, que um dia finalmente consumou numa morte horrível.
Quando é cobrado dessa mentira, o homem justifica: “ Ela sofreu tanto, todo o tempo de vida, que eu só farei condená-la a mais sofrimento, ao sofrimento eterno, se continuar falando dela como uma pessoa infeliz. Então eu minto, para que em algum lugar,em algum tempo, mesmo que só nas minhas palavras, possa ser feliz.”
Não sabia se conseguiria. Na teoria eu podia fundamentar tudo. Mas daí a trazer isso pra cena são outros quinhentos. De qualquer jeito, devia tentar , devia tentar encontrar uma possibilidade de prazer naquela morte.
Vamos à cena
Tanto Remo quanto o diretor concordaram com esse caminho, descoberto em câmera aberta. E fiz aquelas perguntas de praxe, objetivas, de construção da Beth, de forma distanciada e profissional. Vamos olhar as roupas, ver como se vestia, como usava os cabelos ( “Tá bom assim? Arma mais o cabelo? Borra mais o batom? É isso?”), a maquiagem meio borrada como a dela, os brincos meio sem sentido, descasados da roupa e do colar.... E fomos.
Não havia em cena um sofá, nada, para amparar a cena. Pano preto e só. Depois decidimos colocá-la no telefone com uma amiga, no início da cena, para mostrar sua alegria natural e marcar o lugar do telefone que ela tentará alcançar na morte. Entraram então uma pequena mesinha e um telefone.
Não tem ensaio, nem de ator nem de câmera. Rogério vai me acompanhar, todo o tempo, com a câmera na mão. Tem que fazer valendo, a cena de início ao fim, sem direito a repetição. Devia durar por volta de 7 minutos. Mais sete, no episódio, seriam tomados por fotos que não vi de Beth, e narração.
Estávamos bastante tensos, Remo e eu. E só pedi a ele que me batesse de verdade, pra não ficar aquela coisa falsa, de um bate aqui, outro vira a cara pra fingir que apanhou, e me dar mais força de reação. Claro, ia bater de verdade, mas não necessariamente me matar em cena. O estúdio todo estava tenso.
A luz era feia, fria, quase uma luz de serviço, sem nenhum glamur, deixando à mostra todas as rugas, olheiras, tudo. “Meu Deus, como estou velha!” – eu disse, quando me vi no monitor. E a ordem é deixar vazar tudo, vazar o bum ( aquele microfone tipo girafa), vazar o estúdio, tudo.
E aconteceu
Foi tudo muito rápido, como deve ter sido o momento real da agonia. Não sei, afinal, em quanto tempo fiz a cena. Sei que foi rápido, e que este tempo, para mim, foi também infindável. Durou um século. O tempo real nada tem a ver com o de cena.
E eu me sentia meio dormente, o tempo todo. De fato, não senti as porradas que levei de Remo. E se tivesse batido mais ( teve pena de mim ou de Beth e não bateu muito), eu também não sentia.
Estava perfeitamente consciente durante a cena, claro. Sabia onde estava a câmera todo o tempo, e trabalhava com ela. E quando chegava próximo ao telefone, em plena agonia, e devia morrer antes de alcançá-lo, vi que Ceylão entrava em campo, para afastar mais a mesa . Entendi que queria que eu estendesse mais a cena. Estava então perfeitamente consciente, mas dormente.
Falava coisas, dizia falas inteiras de Anita. Mas sem pensar. Falava o que me vinha à cabeça.
Vermelho, 24
Não havia sangue na cena, todos concordamos que seria de mau-gosto colocar sangue. Mas eu olhava e via o chão do estúdio inundado de sangue. Eu via o sangue saindo de mim. Um delírio de cena, apenas, e todo ator conhece essa forma de delírio. A cena, quando muito intensa, chega a ser alucinógena. Então me veio na boca uma frase de Anita: “Vermelho, 24. Vermelho 24”. Era a voz do croupier, anunciando que ela ganhava no jogo, voz que a perseguiu sempre durante suas depressões.
Anita, como Beth, gostava mesmo era de pôquer, mas jogava em tudo. Na roleta, jogava sempre no Vermelho, 24, desde que um bailarino russo, que fazia o show do cassino, passando por ela, lhe disse ao ouvido, em francês, com voz quente, hálito gostoso: “Rouge, 24”. O bailarino russo morreu jovem, tuberculosos. E Anita o descrevia assim: “ O bailarino russo. Tão leve, tão imaterial, tão breve.”
Pronto, acabou
Isso tudo foi ontem, maio de 2008.
Saí do estúdio num táxi, pensando: “Vou parar no primeiro bar e tomar um monte de cerveja. Vou encher a cara e voltar pra casa pronta pra cair na cama.” Mas tudo estava fechado no caminho. Era madrugada de terça para quarta-feira e vim direto pra casa, numa excitação louca, que o longo banho de chuveiro não arrefeceu. Todo o meu corpo doía. Músculos, ossos. Doía a pele.
Não dormi a noite Mas era só excitação. Nenhuma energia ruim, nada. Nenhum fantasma perturbador. Uma sensação bem conhecida da gente, ator, quando a gira é boa. O personagem sobe, deixando o cavalo cansado demais para dormir, (termos de Umbanda que o teatro se apropria na intimidade), cansado demais para descansar. E aquela gira tinha sido dessas. A boa gira deixa uma sensação boa ator, mesmo que a cena lhe cause dor.
É claro que, no meu inevitável perfeccionismo, pensava: “ Podia ter ido mais aqui ou ali. Se pudesse repetir, pedia a Remo pra me bater mais...Devia ter demorado mais a cair” . Ajustes que se faz nos ensaios. Mas a proposta era essa, sem ensaio. E concordo que, se faltam os ajustes nela, sobram outras coisa, que só a primeira vez, o primeiro contato com o personagem, trazem.
Depois, você conquista outras coisas, mas a primeira vez é sempre a primeira vez.
Quando enfim consegui, dormi 18 horas. E acordei direto para o computador, para fazer esse relato... o primeiro para as Confissões que começam aqui a se montar.
railler de Você Está Aqui
Memórias e alucinações
2008-06-04
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2 comentários:
Olá, "minha Duse"! Estou aqui, lendo o início de suas confissões, "trêmulo de beleza". Quando virá o capítulo sobre Anti-Nelson Rodrigues?
Deixei uma nota no meu blog.
oi Musa...
Quero mais textos. blog recém-inaugurado não pode ficar parado.
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