Memórias e alucinações

2008-07-08

Capítulo 5

Do que falaremos e de quem

Resumo do capítulo: como se fez a resistência, as três últimas histórias de Vila Mimosa, a espera por Nelson.
São citados: José Henrique Alcântara, Goethe, Nelson Rodrigues, Roberto Rodrigues, Mara, Nádia, Lalinho, Adair Rocha, Lula, Leonel Brizola, Tia Valdete


Das Memórias e dos fiéis

Tenho gostado de escrever assim essas Confissões. O trabalho do escritor é muito solitário, e a gente nunca sabe se o que escreve vai ou não interessar a alguém. Na Internet, a resposta é imediata. As pessoas escrevem, opinam, capítulo a capítulo, pedem histórias, sugerem mudanças, e a gente acaba fazendo um trabalho a muitas mãos.

No decorrer destas histórias, você saberá o quê em mim incomodou tanto tanta gente, porquê, pouco a pouco, de que forma ou por que métodos, fui sendo condenada à mesma invisibilidade da Vila Mimosa que descrevo, primeiro sutilmente, depois desavergonhadamente, a ponto de eu mesma quase acreditar na invisibilidade, de quase acreditar que era mesmo assim, que meu trabalho não tinha mesmo muita importância e o que quer que fizesse ninguém veria.
Eu, que pela vida afora escapei de tantas armadilhas, quase caí nessa última.

Quase.

Fui salva pela Internet. Fui salva pelas dezenas de sites e de blogs que fui encontrando, e que procuram por mim; pelas salas de conversação em que se pedem notícias minhas, se trocam informações a meu respeito, que pedem minha volta à cena. Fui salva pelo voltaneilatavares.com; fui salva pelo José Henrique Alcântara, no seu cronicasperversas.com, que encontrei no Google, lembrando ainda hoje o meu Mefisto, n’O Fausto, de Goethe, e pedindo: " Neila, me dá um sinal. Qualquer um, mas dá um sinal ”.

Fui salva por aqueles que me permaneceram fiéis em tanto tempo. Fui salva pelos fiéis a Nelson Rodrigues que entenderam tudo. Fui salva pelos que reclamam em suas páginas o papel que me é devido no resgate da obra de Roberto Rodrigues.

Fui salva pelos inconformados, pelos amigos desconhecidos que formaram este pequeno exército de resistência e por quem – vale a pena – prometo aqui continuar insuportável e incomodar ainda muito mais.

Não poderia então ter melhores parceiros para estas Confissões.


Três histórias

Mas quero, por hora, encerrar a Vila Mimosa, com três pequenas histórias que ainda acho que merecem ser aqui contadas.

Se usei na Tia Mara seu nome verdadeiro ( se é que era mesmo esse o seu nome. Suspeito que todos na Vila usavam codinomes. Mas pelo menos o nome que ela de fato usava ali) é porque não está mais entre nós. Mas daqui em diante usarei nomes fictícios, que não sei onde andam agora estes meus personagens. Afirmo, entretanto, que apenas em seus nomes faço aqui concessão à ficção, no que concerne à Vila Mimosa. No mais, todo o resto é absolutamente verdadeiro.


Primeira história: Nádia

Baixinha, cheinha, de cintura marcada, paraense, traços indígenas, cabelos longuíssimos e negros, bonitas pernas que ela sabia bem explorar em saias curtíssimas e um jeito gostoso de cruzar e descruzar enquanto falava, com sorriso iluminado e olhinhos pequenos de Capitu.

Nádia trabalhava num escritório no Centro da Cidade. Servia cafezinho. E, no horário do almoço do escritório, e só neste horário, atendia clientes poucos e certos, discretos e selecionadíssimos, pré-agendados, na Vila Mimosa.

Era casada. O marido não sabia. Já se prostituía antes e continuou depois do casamento. O marido não sabia nem do antes nem do depois.

Era um homem digno – ela dizia – trabalhador, decente. E o que ganhavam os dois, sem filhos, dava para manter a vida numa pequena casa de subúrbio e alguma economia. Mas ela queria mais. Queria a garantia de um dinheiro na poupança, queria roupas mais escolhidas, queria a casa mais bem equipada. E além disso, dizia: “Ninguém deixa a prostituição, não. É bom demais.”

O marido nunca se perguntou de onde saía o dinheiro para tantas prestações e compras, tantos eletrodomésticos e tantos presentes para ele próprio. Roupas de marca e tênis importados.
Gosto de vestir bem meu homem”.

E, com ar entre o preocupado e o safado, repetia: “Se ele souber, me mata. Nem precisa saber. Se desconfiar, só, já me mata. Depois, se mata.”


Segunda história: Lalinho

Mulato e gordinho, sem nenhum pêlo no corpo, à primeira vista se confundia com uma mulher. Tinha seios. Não, não eram bem seios mas acúmulos de gordura num peito em que não se viam músculos. Não era bem efeminado, nem se podia afirmar que fosse homossexual. Nem hétero. Parecia mais não ter sexo.

E aquela pessoa tão dessexualizada, com um estranho sorriso quase doce sempre, sempre nos lábios, lembrava às vezes um anjo. Disse que tinha 26 anos.

Jurado de morte – eu nunca soube nem perguntei por quem - Lalinho não podia sair da Vila. Lá dentro era protegido pela comunidade. Mas havia já quatro anos não atravessava aqueles portões. Não ia à farmácia, ao mercado, ao banco, ao dentista, ao médico, nada. Seu limite era a Vila. E ali vivia, dormia, trabalhava, ajudado por todos. A rua, nunca mais. Quatro anos.

E, no entanto, parecia perfeitamente feliz.


Tia Valdete

Essa é, de todas, minha história preferida da Vila Mimosa. Quando Adair Rocha me contou, achei que romanceava um pouco.

Adair liderava o grupo do PT que militava na Vila. Intelectual, amigo pessoal de Lula, era mais que militante, uma cabeça pensante do Partido. Eu nunca fui do PT. Nessa época, e por brevíssimo tempo, militava no PDT, de Leonel Brizola ( mas não era militância o que fazia na Vila). Brevíssimo tempo, e suficiente para perceber que não tenho nada a ver com partidos políticos e nunca mais tentar um.

Também nunca encontrei lá dentro o pessoal do PT. Mas sabia de seu trabalho. E era bacana, eu acho.

Adair era meu amigo e ás vezes conversávamos. Ele me falou da Tia Valdete, que tinha uma “casa” bem no meio da Vila, em local estratégico. E precisei ver para crer.

Com jeito de avozinha, cabelo branco, curtinho, cara lavada, sobrancelha sem tirar, ela sempre vestia um robe. Não robe de chambre, desses que se põe por cima da camisola. Uma roupa também de avozinha, que parece uma camisa mais longa, chegando abaixo do joelho, abotoada na frente, manga curta, em geral feita em tecido estampado de florzinhas. Cheirava a banho e tinha o pescoço sempre esbranquiçado de talco. Assim ela atendia, atrás do balcão. Era uma perfeita avozinha, de sotaque mineiro.

Gostava de disciplina e suas meninas tinham que estar todas na hora do almoço. Comiam com o prato na mão, mas todas ali, na hora certa. E nessa oportunidade, de reunião familiar, Tia Valdete conversava, dava conselhos e puxões de orelha, ouvia confidências, comunicava a cada uma dia e hora dos exames médicos que em sua casa eram mensais, obrigatoriamente.

Acreditava que o ócio é mau conselheiro e, nos horários de menor movimento, bordava e bordava bem. Ensinou à meninas mais habilidosas o bordado. E toda tarde elas bordavam pra fora, esperando clientes que só chegavam mesmo à noite. As menos talentosas para este trabalho ficavam com os acabamentos, cortavam linhas no avesso, varriam, catavam alfinetes, faziam cafezinho para as bordadeiras.

Um dia, um estilista famoso, especializado em vestidos de noiva, viu o bordado da Vila e mandou um para bordar. O trabalho agradou e ele trouxe outra encomenda. E depois outra e mais outra. E foram tantas, que tiveram que dispensar outros fregueses e ficar exclusivas do tal estilista.

Eram caprichosas. Forravam o chão com papel para não sujar o branco do vestido, lavavam as mãos com freqüência, embrulhavam as peças em papel de seda à medida em que terminavam ou que interrompiam o bordado para atender um cliente.

E, toda semana, parava na porta da Vila Mimosa um carro de luxo para buscar os vestidos nupciais.


O mais pedido

Com Tia Valdete encerro a Vila Mimosa.

Tenho recebido muitos pedidos para falar de Nelson Rodrigues. Mas Nelson não será aqui um capítulo ou dois. Na verdade, há já Nelson Rodrigues na Vila Mimosa, na Tia Mara, na Tia Valdete, em Nádia ou em Lalinho. Como havia já Nelson Rodrigues na criança que fui, obstinada com o avesso das coisas, perplexa, e antes mesmo que ele se tornasse minha leitura mais assídua e obsessiva a partir dos onze anos de idade.

E é preciso saber um pouco mais de mim para entender o que foi esse nosso encontro, tanto pessoal quanto atriz-autor, conhecer os fatos que o precederam e sucederam, porque estou certa de que os grandes encontros da vida antecedem em muito a si mesmos – um tempo que não sabemos, talvez feito de séculos, quando os astros começam a se organizar para isso - e avançam depois pela eternidade, para terminar sabe-se lá em que tempo ou lugar.

Tenham, pois, paciência, que Nelson aparecerá muito aqui, no decorrer de todas essas Confissões.

1 comentários:

ZH disse...

Neila, com o perdão do lugar-comum, estou sem palavras. Pedirei emprestada metáfora do Nelson Rodrigues: Sem palavras e "trêmulo de beleza".

É muito bom saber que aquele pequeno e longínquo post chegou até você e foi tão bem recebido.

Gratíssimo, "Duse"!

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